quinta-feira, 14 de julho de 2011

Chuva

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Li um poema ruim agora... ele falava que a chuva é formada de lágrimas de desaprovação de deus pelo que estamos fazendo com o mundo. Critiquei o moralismo existente. Não devemos julgar nada nem ninguém, apenas cuidar de nossa parte. Não sei se o autor dele separa o lixo, ou ajuda aos velhinhos a atravessar a rua, também não me interessa isso. O que interessa é que todos nós estamos mergulhados em defeitos, fraquezas e completo abandono.
Defeitos que talvez nem percebamos, ou que queremos nos manter cegos para não enxergá-los. Ou ainda, temo-los nos olhos dos outros e que jamais seremos capazes de vê-los refletidos no espelho de nossa outra metade da alteridade. Defeitos que transformam e excluem nossas qualidades e virtudes. Que fazem com que nossos sorrisos cessem e na volta dos lábios se criem rugas.
Fraquezas por não aceitar que temos tantos e tão graves defeitos. Fraquezas de saber que nossas escolhas nem sempre são as certas, e que, às vezes, mesmo tentando acertar temos como alvo o erro. Fraquezas de não saber cumprir o que a razão nos ensina. Fraquezas que nos transformam em sujeitos com cada vez mais e mais defeitos. Mas são fraquezas que acima de tudo nos transformam em sujeitos.
Abandono. Pois eu não existo longe do outro. Sou um cão escondido em meus pêlos molhados num dia chuvoso que chora baixinho a minha solidão. Mas que ainda assim, esse choro carrega a esperança de chegar a um outro que venha em minha direção. Que não veja um ser fedido, ou um animal raivoso, ou ainda um contaminador de ambientes saudáveis e felizes como o é todo aquele lugar em que nunca estive.
Esse cão chora também aqui debaixo da minha cama, no corredor de meu prédio, na esquina de minha quadra, no banco do motorista e também do cobrador dos ônibus que utilizo diariamente. Esse mesmo cão está presente na pessoa que senta ao meu lado no ônibus, como naquela que fica em pé segurando o peso de seu futuro materializado em páginas e páginas. Ele também está naquele cego que mescla chicles da Clarice, como nas mulheres de guerra de Tavares. Nos catadores de lixo amigos, e inimigos, de Seu Beto, como no olhar da Joana pedindo pandorga.
Estejamos todos nós preparados para os dias de chuva, com seus milhares de cães presentes em nossos espelhos.
Nossa alteridade; talvez seja isso que as gotas de chuva esparramam em nosso caminho, nas janelas de nossas casas e também dos automóveis que nos carregam, sem mesmo olharmos as pessoas que estão conosco, nos bancos da frente ou de traz, no guarda-chuva fechado... e talvez também seja por isso que tanta gente foge daquele banho “abençoado” de chuva... reclamando quando molha o cabelo, as mãos, os pés... isso porque chegando em nossa matéria física, essa alteridade torna-se mais próxima de nossa alma.